A polêmica criada em torno da publicação das charges do profeta Maomé por jornais europeus só escancarou o profundo abismo entre dois mundos que há séculos tentam apenas se entender, ao contrário de se compreender. O Islamismo tem sido tão cercado de mitos nos últimos anos, que ficou estabelecida uma cortina de fumaça entre o mundo ocidental e oriental. Cortina esta que propaga a desinformação e a mentira. Mas há um fato ironicamente positivo. Finalmente, no século 21, é que Ocidente e Oriente descobriram algo em comum – ambos são intolerantes e ambos praticam a liberdade de expressão, cada um à sua maneira.
Os jornais, ao publicarem as charges, praticaram sua liberdade de expressão, e as manifestações pelo mundo contras as mesmas charges também foram atos de mesma liberdade. Ora, cada ser humano tem o direito de expressar livremente seus sentimentos e opiniões. Isto aconteceu de ambas as partes e seria positivo se tudo ficasse resumido a este panorama. Mas, negativamente, foram intolerantes os jornais que caracterizaram todo e qualquer muçulmano como terrorista. E igualmente intolerantes foram as manifestações no mundo islâmico que queimaram embaixadas e ameaçaram a vida de ocidentais. Ambos, portanto, erraram.
Os muçulmanos sentiram-se ofendidos de duas formas. A tradição da religião islâmica sempre defendeu a não representação da figura de Maomé. Outra ofensa foi a idéia de vincular Maomé ao terrorismo. A generalização que é dada aos muçulmanos não corresponde à verdade. O Islamismo, tanto quanto as outras religiões e crenças do mundo, prega a paz entre os povos e reconhece Jesus Cristo e Moisés como os outros dois grandes profetas de Deus. Os povos do Oriente Médio, sejam eles cristãos, judeus ou muçulmanos, são muito mais ligados à religião do que o ocidental. Ela tece seus modos de vida e rege até suas leis. É natural, portanto, que reagissem como reagiram, embora tenham se excedido.
As charges somente colocaram mais em evidência um problema de dois mundos que andam na contramão da globalização de culturas. A maior parte da imprensa jamais se perguntou do porquê do crescimento do fanatismo religioso no mundo árabe. Melhor do que a provocação seria a compreensão. Há diversos fatores que explicam este contexto. Um deles é o desemprego. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a média de desemprego nos países árabes foi de 12% em 2005, quase o dobro da média mundial de 6,3%. Em algumas regiões, este índice subiu para expressivos 25%, em que jovens, sem perspectivas de trabalho, são atraídos facilmente pelas organizações fundamentalistas. Questões peculiares, que o Ocidente muitas vezes, deliberadamente ou não, desconhece.
Mas a cortina de fumaça esconde outras realidades. Desde os atentados de 11 de Setembro, o racismo vem crescendo a cada ano aonde ele pensava-se estar dissipado: a Europa. A retórica da “guerra ao terror” só fez aumentar a discriminação aos muçulmanos e deu munição para que populações do mundo árabe acreditassem que há uma nova Cruzada em curso contra o Islã. Em vários países, o anti-semitismo cresceu (árabes também são semitas) e a discriminação passou a ser mais visível. Como conseqüência, as pessoas têm recorrido à religião como defesa, aumentando as chances de serem seduzidas pelos fanáticos fundamentalistas.
A imprensa ocidental erra ao associar terrorismo com religião. O terrorismo é independente de religião. Bin Laden e Al Qaeda nada representam para a imensa maioria dos povos islâmicos. Suas causas, supostamente religiosas, não têm legitimidade. Mas se aproveitaram de um contexto social e político para difundir uma propaganda contra o Ocidente e, assim, trazer mais simpatizantes, geralmente pessoas frustradas e desesperadas que nada têm a perder.
Os muçulmanos querem, isto sim, perspectivas de um futuro melhor e que se traduza em mais democracia, mais paz na região, menos discriminação contra sua fé e mais tolerância. E a imprensa, portanto, deveria cumprir com seu papel de construção da paz e aproximar estes dois mundos. No mínimo, se preocupar com a ética profissional, que faltou para os editores dos jornais europeus, e seguir o velho princípio do jornalismo, o de sempre ouvir os dois lados, mas que, infelizmente, só tem sido aplicado quando convém. Se a imprensa quer ter um papel decisivo na globalização, em que culturas devem compreender outras, ela precisa trazer conhecimento e não apenas informações e estereótipos. E para que não ocorra a violência e a intolerância, governos e imprensa devem buscar a aproximação com o Oriente, promovendo uma democracia feita por árabes e para os árabes, não uma importada, feita em laboratório, como a que ocorre no Iraque. Só assim haverá uma verdadeira liberdade de expressão que acabará com a intolerância, e não aumentá-la como vem acontecendo.
*Tariq Saleh é jornalista, repórter internacional e free-lancer para jornais estrangeiros. É autor da monografia
POSTED BY TARIQ
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