
Em Beirute, uma pessoa encontrará dezenas de livros, filmes e documentários sobre a invasão israelense de 1982 e suas consequências. Um interessado pode achar desde autores americanos até europeus e árabes. Mas no país, é impensável encontrar qualquer obra israelense.
E este ano, o filme de animação Valsa com Bashir (2008), do diretor israelense Ari Folman, é mais um produto de Israel que teve sua importação e reprodução proibidos no Líbano.
O filme, que concorreu ao Oscar este ano e vencedor do Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro, conta a história real do próprio diretor, que serviu o Exército israelense na invasão ao Líbano.
O ministro da Informação libanês, Tarek Mitri, já havia anunciado, em janeiro, que o filme estava proibido e que sua reprodução seria uma violação da lei.
Quando ocupava o cargo de ministro da Cultura, Mitri tentou, em vão, abolir as leis de proibir obras israelenses no Líbano.
“Mas de acordo com as leis atuais, o filme está proibido no país”, disse Mitri, um opositor da censura.
O ministro, no entanto, admitiu que a proibição era inútil uma vez que qualquer pessoa poderia conseguir uma cópia pela internet ou trazer do exterior.
Depois da guerra entre Hezbollah e Israel, em 2006, voltaram as discussões sobre o direito a ter acesso a livros, filmes e outras produções isralenses.
Os defensores alegam que apenas vendo o que se produz em Israel pode-se entender o inimigo.
Clandestinos
O filme de Folman aborda temas sensíveis aos libaneses, em especial a aliança entre Israel e o líder cristão Bashir Gemayel, morto em um atentado à bomba dias após ser eleito presidente do país, e os massacres dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila.
Assombrado pelas memórias perdidas da guerra, Folman parte em uma jornada por diferentes países onde entrevistou outros sete colegas do exército.
No Líbano, houve sessões clandestinas com o filme, em que pessoas conseguiram cópias e passaram para um gupo de amigos.
Um deles foi o engenheiro eletrônico Fadi S., que conseguiu uma versão com um amigo que veio da Europa e mostrou para alguns colegas e amigos, alguns ligados ao cinema.
“O filme é muito bom, aborda temas sob um ótica israelense. Foi estranho para nós vermos algo em um idioma considerado do inimigo”, declarou Fadi.
Ele condenou a lei libanesa que proibe obras israelenses por considerar que arte não tem fronteiras.
“Acho estranho um país que se orgulha de ser a única real democracia do mundo árabe agir desta maneira”.
A censura ao filme fez com que vários fóruns fossem criados em sites que discutem a mídia.
“As opiniões ficaram divididas, em que alguns concordaram com a censura, outros falaram em leis antiquadas” disse o estudante de cinema Bassil Suleiman, criador de um dos grupos de discussão.
Tabus
Uma das primeiras pessoas a desafiar a lei foi a alemã Monika Borgmann, que exibiu o filme em sua própria casa para um grupo de 40 amigos.
“As pessoas gostaram e ficaram afetadas pelo filme. Não se trata de política, mas de arte e de levantar temas relativos à História do país”, disse Borgmann aos jornais locais.
Para Borgmann, que é casada com um libanês, é essencial para as pessoas assistirem ao filme, pois trata de uma “conexão comum entre israelenses, libaneses e palestinos” – o massacre de palestinos em Sabra e Chatila por forças cristãs aliadas de Israel.
“O filme mostra como os soldados israelenses que controlavam os campos não fizeram nada (e até ajudaram), para evitar o massacre de civis nos campos”, disse ela.
Borgmann declarou, também, que o filme era importante por desafiar o senso de memória coletiva que se perdeu após a guerra civil (1975-1990), a lei informal que prevaleceu após o conflito das pessoas esquecerem tudo que se passou.
A socióloga Sofie Saadeh, autora de livros sobre a sociedade libanesa pós-guerra civil, disse que a população que sobreviveu aos anos de conflito tentou esquecer o passado e, com isso, se criaram vários tabus.
“Muitas pessoas no Líbano, especialmente os líderes que protagonizaram a guerra civil, não querem falar a respeito de seus erros. Houve um esquecimento deste capítulo da nossa História”, disse Saadeh.
Segundo ela, o título do filme israelense por si só já causa uma oposição por aqueles ligados aos Falangistas.
“É extremamente difícil para eles lidarem com o fato de que Bashir Gemayel continua um herói para muitos cristãos mesmo depois de ter se aliado a Israel”.
Sabra e Chatila
Em 1982, o exército israelense invadiu o Líbano sob o pretexto de derrotar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) , liderada pelo falecido Yasser Arafat. As guerrilhas palestinas usavam o sul libanês para lançar ataques contra o norte de Israel.
Após o cerco a Beirute, a OLP negociou sua rendição e retirou seus guerrilheiros do Líbano. Os campos de refugiados ficaram sob o controle militar israelense.
Mesmo assim, milícias Falangistas entraram nos campos de Sabra e Chatila e massacraram ao menos 800 palestinos.
Mas outras organizações de direito humanos disseram que o número pode ter sido de até 3.000 refugiados e acusaram Israel de não ter feito o suficiente para prevenir o massacre.
Depois de enorme pressão internacional e do público israelense, o então ministro de Defesa, Ariel Sharon, foi responsabilizado indiretamente pelas mortes e teve que renunciar ao cargo.
Em declaração ao jornal israelense Haaretz, o diretor Folman disse que se sentia feliz por seu filme estar sendo exibido, mesmo que clandestinamente, em Beirute.
“O filme pode não ter efeito para mudar as percepções nos líderes políticos, mas ter um pequeno grupo de pessoas que puderam assisti-lo já é maravilhoso”, disse Folman ao Haaretz.