24 February, 2008

Brasileiro fala sobre prisão no Líbano; assista*


Tariq Saleh/Beirute

 Omais e a mulher, Gisele do Couto Oliveira.

O pediatra brasileiro Mohamad Kassen Omais, 45 anos, que ficou preso durante sete dias no Líbano e foi solto hoje, falou à BBC Brasil sobre o pesadelo que viveu na prisão.

“Quando o juiz libanês comunicou que eu estava sendo liberado e que ele acreditava que eu era inocente, eu me senti muito aliviado. Tive vontade de chorar”, disse o brasileiro, sentado em uma sala na casa de seus pais, na cidade de Qaraaoun, no Vale do Bekaa, ao lado dos três filhos e da mulher, Gisele do Couto Oliveira.

O médico havia sido acusado de ‘adulteração de seu passaporte libanês’ e estava sendo investigado por uma possível relação com atividades terroristas.

Assista: Médico dá entrevista exclusiva à BBC Brasil

Omais foi preso no dia 15 de fevereiro quando desembarcava, juntamente com a mulher, no aeroporto de Beirute.

O casal foi ao Líbano para buscar os filhos, que estavam em férias com os pais de Omais desde dezembro do ano passado.

As autoridades libanesas acusavam o brasileiro de adulterar seu passaporte libanês, e as Forças de Segurança Internas (FSI) também investigavam sua relação com ‘terrorismo’.

Pressão

“Na prisão, embora não tenha sofrido agressões físicas, eu fui alvo de muita pressão emocional e psicológica.”

Omais contou que os oficiais o interrogavam em árabe, dificultando as respostas dadas por ele, uma vez que não domina totalmente o idioma.

“Por um momento eu achei que iria sucumbir, mas lembrava da minha família e logo ficava mais forte.”

O caso de Omais envolveu até o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, que conversou na quinta-feira, durante encontro em Buenos Aires, com o ministro de Justiça do Líbano, Charles Rizk, pedindo sua intervenção no caso.

“Agora tudo o que quero é voltar ao Brasil e esquecer tudo isto, continuar minha vida pessoal e profissional”, disse Omais.

Primo

O médico disse que foi informado pelas autoridades de que seu passaporte teria sido adulterado.

“Eu confirmei que o passaporte era meu e que reconhecia a pessoa na foto. Era um parente meu, o meu primo.”

Fontes das forças de segurança já haviam dito à BBC Brasil que o primo do médico trata-se do também brasileiro Zuheir Omais, que estaria sendo procurado pelas autoridades libanesas e residiria atualmente no Brasil.

O primo teria usado o passaporte do médico para viagens à Síria que, segundo policiais libaneses, estariam relacionadas com atividades terroristas.

“Eu usei meu passaporte libanês por duas vezes apenas, quando eu morei aqui no Líbano por um curto período e viajei à Síria”, disse Omais.

O brasileiro não soube explicar como seu passaporte, que foi deixado com os pais quando voltou a morar no Brasil, foi parar nas mãos do primo Zuheir Omais.

“Essa é uma pergunta que simplesmente não tenho uma resposta para dar, não sei como foi acontecer”, disse.

Imagem negativa

Omais confessou que sente um certo receio em relação a sua volta, neste dia 28, para Cuiabá (MT), onde reside.

“Da noite para o dia fiquei com uma imagem negativa. Tenho medo de como as pessoas vão me ver, como vão se referir a mim.”

“Por ter origem árabe, já estou marcado como terrorista, e acho que levará um tempo até superar esta imagem negativa que caiu sobre mim”, disse.

Segundo a mulher, durante os dias que seu marido estava preso os dois filhos mais velhos sabiam do que estava acontecendo.

“O mais velho sempre foi otimista com a libertação e inocência do pai, mas o outro ficou até doente, sentiu o efeito do episódio”, disse Gisele.

“Temos medo de como nossos filhos serão tratados no Brasil por causa de toda esta repercussão.”

*Esta matéria foi publicada pela BBC Brasil no dia 23/02/2008.

Tariq Saleh é jornalista e correspondente estrangeiro para a BBC Brasil em Beirute, cobrindo Oriente Médio e África. É colaborador da Folha de S.Paulo, revistas brasileiras e estrangeiras e produtor de TV freelancer.

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