22 July, 2007

Família vê brasileiro morto no Líbano como mártir*


Tariq Saleh/Soultan el Yacoub (Líbano)

Tenente no Exército libanês, Smidi foi atingido quando resgatava colega ferido. Confronto em campo de refugiados palestino matou 111 soldados e 20 civis em dois meses; santista de 26 anos estava no país havia 13.

Para sua família, o brasileiro Ali Ahmad Smidi, morto na última segunda em confrontos entre integrantes da milícia radical islâmica Fatah al Islam e tropas do Exército libanês no campo palestino de refugiados de Nahr el Bared, é um mártir.

"Sinto orgulho dele. Ele cumpriu seu dever e pagou com sua vida. Ele é um mártir, um herói para esta cidade", diz o pai, Ahmad Smidi, 68, na casa da família, em Sultan el Yacoub. A cidade fica no Vale do Bekaa, região no leste do Líbano onde se calcula viverem pelo menos 6.000 cidadãos brasileiros.

Pela casa dos Smidi, estão espalhados retratos do tenente de 26 anos. O pai se resigna. "Que posso dizer além de lamentar? Um pai jamais deve enterrar um filho."

Smidi comandava uma unidade de 40 soldados e estava lotado no sul do país quando foi chamado para lutar no campo, que fica perto da cidade de Trípoli, no norte. Ao tentar socorrer um soldado ferido de sua unidade, o brasileiro foi alvejado por um franco-atirador.

Segundo o Exército libanês, o tenente carregava o colega nos ombros e usava colete à prova de balas. Mas a bala entrou pela axila de Smidi. Perfurou o pulmão e o coração antes de sair pela outra axila.

Honrarias

O corpo do tenente foi enterrado na terça, no cemitério que fica nos arredores de Sultan el Yacoub. O comandante do Exército libanês, general Michel Sleiman, presente no enterro, rendeu-lhe homenagem.

Na cidade, ontem, o sentimento era de abatimento. Na comunidade brasileira, o jovem Smidi era muito bem-visto. O empresário Nagib Barakat, 38, vizinho e amigo da família, disse que o militar era "um jovem de princípios" e que agora era considerado um herói pela cidade.

"Qualquer pessoa que defende sua pátria é um herói. E o Ali ainda tentou salvar a vida de um subordinado, isso fez dele um mártir", disse.

Smidi nasceu em Santos, como seus dois irmãos e irmã. Há 13 anos, a família se mudou para o Líbano, e apenas um dos filhos permaneceu no Brasil. Com ajuda da irmã, casada, ele tomava conta dos pais e do irmão mais novo. "A família é bem humilde, e era o Ali que os sustentava", conta Barakat.

O tenente não pretendia voltar à terra natal. "Ele ia todos os anos ao Brasil visitar o irmão, pois gostava do país, mas estava feliz aqui", lembra o pai.

Em julho de 2006, ao eclodir a guerra entre Israel e a milícia xiita Hizbollah, no sul do Líbano, Smidi passava férias no Brasil. Foi convocado às pressas, mas o Exército não chegou a se envolver no conflito.

Ontem, o Cônsul-Geral do Brasil em Beirute, Michael Gepp, esteve em Sultan el Yacoub para prestar condolências em nome do governo brasileiro. "Uma multidão estava reunida para prestar homenagens ao jovem. Colocamos todos os nossos serviços à disposição", afirmou Gepp.

O conflito entre o Exército e o grupo radical em Nahr el Bared eclodiu no último dia 20 de maio. Apesar de o governo libanês ter declarado que expulsou os militantes no mês passado, os confrontos persistem -ontem, mais quatro militares morreram, elevando o total para 111. Nesses dois meses, ao menos 20 civis morreram, além de mais de 60 militantes.

*Esta reportagem foi publicada pela Folha de S.Paulo na edição de 20/07/2007.

Tariq Saleh é jornalista e vive atualmente em Beirute, capital do Líbano. É correspondente estrangeiro no país, trabalhando como repórter para a BBC Brasil, Folha de S.Paulo e outras publicações estrangeiras.

POSTED BY TARIQ AT 10:54 am 0 COMMENTS    


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