Base Cervantes, onde serviam soldados da ONU mortos em ataque, mudou rotina local. Atentado que vitimou seis militares revolta moradores de Ebel es Saqi: "Não é certo que eles tenham morrido pela paz", lamenta um deles.
Cercada por pomares e pinheiros, Ebel es Saqi, vilarejo de 3.000 habitantes perto de Marjayun, no sudeste do Líbano, não poderia estar melhor localizado - a 400 metros da base das Forças das Nações Unidas no Líbano (Unifil, na sigla em inglês). Mas o ânimo e os negócios não andam bem. A morte de seis soldados da Unifil no último domingo, em um atentado, provocou um misto de tristeza, revolta e medo.
O campo da ONU em Marjayun, chamada de Base Cervantes, é um moderno complexo cercado de câmeras e cercas eletrificadas. A Unifil é formada por capacetes azuis de diversos países, e a base de Marjayun está sob a liderança do Exército espanhol, que mantém 1.025 soldados no Líbano.
Com o crescimento do contingente nos últimos 11 meses, a cidade viu crescer o número de estabelecimentos para atender soldados. Os espanhóis são aqueles com os quais a população mais sente afinidade. Muitos até aprenderam espanhol.
Ao longo da rua principal, bares, cafés, lojas e mercados foram criados para satisfazer o consumo dos militares. O hotel local virou centro de lazer, com piscina, bar e pista de dança. Durante a noite, jovens desfilam por ruas que, anos atrás, eram vazias e sem vida.
O empresário Kamil Faar Rizk, 44, tem uma loja de eletrônicos e fotografia. Todos os dias costumava receber vários militares espanhóis, além, é claro, de outras nacionalidades.
Mas os negócios pioraram devido à insegurança no país. Os "turistas", soldados da ONU, pararam de freqüentar a noite em Ebel es Saqi. Bares e restaurantes, antes agitados, agora colocam música espanhola para tentar atrair seus fregueses, que costumam passar a poucos metros dali em comboios, agora fortemente armados. "Às vezes eles vinham somente para conversar. Agora poucos se atrevem a sair da base", diz.
Ninguém mais se sente seguro, afirma ele, porque o atentado não foi só contra os espanhóis mas contra o povo libanês também. "Nós gostamos da Unifil. Não é certo que pessoas que vieram para trazer paz morram por isso", sentencia.
Em alerta máximo e reclusos na base da ONU desde o atentado, dois oficiais espanhóis apareceram na cidade para fazer compras e concordaram em falar com a Folha, sob a condição de terem os primeiros nomes omitidos.
O tenente Gonzalo, 34, disse que era difícil esconder o quanto o ataque abalou as tropas. "Ficamos nos perguntando porque fomos alvejados. Para ser sincero, jamais esperávamos isso", desabafou. "Mas nada vai nos impedir de cumprirmos nossa missão no Líbano".
Selvageria
Para o capitão Alcazar, 32, o atentado não mudou a opinião dos soldados espanhóis que estiveram em outras missões ao redor do mundo. "O Líbano e seu povo são maravilhosos, não queremos sair daqui", diz.
Dono de um mercado, Elias Lakiss, 39, não escondia seu desapontamento com o que ele considera um ato de selvageria contra um povo amigo. "De todos da Unifil, os espanhóis são os que mais se parecem com os libaneses, pois são amáveis, têm hábitos parecidos com os nossos", disse.
Para ele, os seis soldados mortos são agora mártires. "Naquele domingo pela manhã, fomos à base para uma cerimônia de entrega de medalhas aos soldados que completaram três meses no Líbano. E agora alguns morreram de uma forma tão covarde. Com certeza, para o povo da cidade, eles são mártires da paz", disse Lakiss.
Os espanhóis mudaram os hábitos da cidade. "Antes, dormíamos cedo, era uma vida monótona. Eles trouxeram alegria e acabamos juntando nossas culturas. Não mereciam isso", diz Lakiss.
O dono do hotel local, Fouar Hamra, 54, conta que o atentado foi um duro golpe para o pouco turismo da região. Seu hotel fica em um prédio de três andares com uma piscina quase vazia, não fosse alguns turistas se refrescando no sufocante e úmido calor do sul do Líbano.
Mas Hamra diz que os negócios não são sua maior preocupação. "O que mais me deixou chateado foi a morte dos soldados. A maneira covarde como foram assassinados", diz.
Na esquina perto do hotel, há uma imensa faixa em que estava escrito o quanto Ebel es Saqi estava de luto. "Eles passaram a fazer parte da nossa cidade e modo de viver", diz.
*Esta matéria foi publicada na Folha de S.Paulo na edição do dia 01/07/2007.