19 April, 2007

Era uma vez em Bagdá


Tariq Saleh/Beirute

 (Foto: Mohammed Jalil/EFE)

Era uma vez uma cidade chamada Bagdá, outrora a capital do mundo árabe no tempos de ouro do império islâmico. Era uma vez uma cidade conhecida por sua História, sua riqueza cultural e seu passado glorioso. Era uma vez simplesmente uma cidade. Bagdá, hoje, é a cidade dos atentados e mortes. Ao mesmo tempo, milhares fogem do país, desestabilizando os países vizinhos.

O inferno do Iraque virou rotina nos noticiários internacionais. Mas a série de atentados com carros-bombas ontem, que mataram mais de 200 pessoas e feriram cerca de 150, deixaram claro que o novo plano de segurança apresentado pelos Estados Unidos para estabilizar o país já é um fracasso.

O cenário de horror captado pelas lentes de fotógrafos e cinegrafistas trouxe um só pensamento: pobre povo iraquiano. Quantas mais pessoas devem morrer para que a comunidade internacional, e especialmente os norte-americanos, se dêem conta de que os EUA perderam a guerra? Não há saída honrosa do Iraque. Não importa o que façam, os invasores, que em 2003 jogaram as leis e convenções internacionais na lata de lixo, sairão do Iraque derrotados e humilhados, como já estão.

O plano de segurança do presidente dos EUA, George W. Bush, que prevê uma série de medidas para conter a 'insurgência' e o envio de cerca de 30 mil novos soldados ao país, já mostrou que está fadada ao fracasso. A 'democracia' artificial não funciona e os norte-americanos deixarão um Iraque em ruínas. 

Toda a tecnologia bélica empregada pelos militares dos EUA, que lançam bombardeios e incursões pelo país usando helicópteros e aviões para destruir a resistência, resulta em absolutamente nada, o mesmo efeito da política externa do governo que os mandou ao Iraque.

O governo iraquiano e os EUA não sabem nem quem são os inimigos. Há os rebeldes, que constituem a resistência. Há so terroristas da Al-Qaeda, que nada representam para a imensa maioria do povo árabe. Mas sem diferenciar propósitos, as tropas norte-americanas vêm humilhando todos os iraquianos, aumentando sua impopularidade.

Além disso, os efeitos da desastrosa aventura militar dos EUA pode ser sentida nos países vizinhos. Aqui no Líbano, todos os dias chegam iraquianos que fogem de seu país, especialmente Bagdá. Estes novos moradores se instalam nos bairros pobres de Beirute, onde se juntam a palestinos, sírios, curdos e outras etnias.

Nestas zonas, esquecidas pelas autoridades, não há esgoto, canalização de água e a eletricidade é deficiente. As condições de saúde são as piores possíveis. Os iraquianos com maior poder aquisitivo optam pelo distrito de Dahiye, reduto xiita ao sul de Beirute e sede dos escritórios do partido e milícia do Hezbollah. Mas para todos não há empregos. Que será deles?

A Síria é o país que enfrenta o pior problema com os refugiados. São cerca de 700 mil em solo sírio, junto à fronteira com o Iraque. Todos os dias chegam mais refugiados, que se juntam a outros - os palestinos. A ONU tenta desesperadamente convencer os governos sírio, iraquiano e dos EUA a prover ajuda a toda esta gente, numa situação que já se constitue um desastre humanitário.

Enquanto isto, Bagdá arde em chamas. Uma cidade que era uma vez uma cidade.

Tariq Saleh é jornalista e mora atualmente em Beirute, no Líbano.

POSTED BY TARIQ AT 09:57 am 270 COMMENTS    


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