
Alguns dias antes do assassinato do ministro Pierre Gemayel, ocorrido ontem em Beirute, um motorista de táxi libanês resumiu em poucas palavras a situação atual do Líbano. Entre conversas sobre política interna, o taxista disse que o Líbano estava à beira do abismo, com um futuro incerto e nebuloso.
A crise política e o temor da volta de uma guerra civil refletem-se nos rostos de cada libanês. Do norte ao sul do país, as pessoas estão cansadas de guerras. O mais intrigante é que, apesar das decepções com seus líderes, os libaneses conseguem tocar suas vidas em um país belíssimo, mas que sempre pagou um alto preço por sua localização geográfica.
Diante das TVs que noticiavam a morte de Gemayel, os libaneses amaldiçoavam Síria, Irã, Israel e Estados Unidos por usarem o Líbano como campo de batalha. Aqui, os senhores da guerra não diferem muito de outros lugares, apenas vestem ternos mais caros e têm nível intelectual maior.
O recente conflito entre Israel e Hezbollah jogou os libaneses em uma depressão tão profunda que muitos (os mais ricos) começaram a deixar o Líbano para morar em outros países. Aos pobres não resta alternativa senão rezar para que a opção pela guerra civil não passe pelos pensamentos de seus líderes.
No entanto, o atentado de ontem fez o fantasma da guerra civil voltar com ainda mais força, por um simples motivo. É a primeira vez, desde a morte do ex-primeiro ministro Rafik al-Hariri e a série de atentados contra líderes cristãos, que um integrante do partido Falange Cristã (conhecido como Kataeb) é assassinado. Os falangistas são conhecidos por suas posições de extrema direita.
Mas nem todos culpam a Síria pelo assassinato de Gemayel. Na verdade, muitos também acham que tanto a CIA quanto o Mossad (serviço secreto israelense) poderiam ter executado o atentado, com a intenção de desestabilizar o país. Desde terça, policiais entram nos hotéis à procura de turistas sírios, americanos ou mesmo libaneses colaboradores de Israel.
Beirute está tomada por tropas do exército e forças de segurança. E, apesar da maioria cristã não desejar uma nova guerra civil, um fato ilustra bem o sentimento aqui no Líbano. Há alguns dias, um homem usando um crucifixo no pescoço entrou em uma loja em um bairro cristão. Abriu uma valise e olhou orgulhoso para um dono do estabelecimento que aparentava ser seu amigo. Na valise havia um fuzil AK-47 que acabara de adquirir. O taxista estava certo - o país está à beira do abismo, só falta o empurrão final.