19 September, 2006

Líbano: fraturas na concepção de uma identidade nacional compartilhada


Jamil Zugueib Neto

Prestando atenção ao comparar as opiniões emitidas por libaneses nos jornais sobre os ataques cometidos por Israel a seu país, um brasileiro pode ficar intrigado com as opiniões tão opostas entre alguns depoimentos. Alguns defendem as posições do Hizbollah e se referem a eles como patriotas defensores do solo libanês. Outros francamente culpam-no como um mal e como responsável pela destruição do país.

Os mais pragmáticos censuram o grupo por provocar um inimigo tão forte e que, por isso, deve agüentar as conseqüências, sem ao menos reconhecerem que o Hizbollah luta pela determinação e integridade do país. E, surpreendentemente, alguns cristãos chegam a justificar as ações do exército israelense e crêem que a resolução do problema está em eliminar ou expulsar do país um expressivo número de representantes de etnias confessionais muçulmanas. Essas posições podem ser percebidas também nas discussões entrepatrícios” de confissões diferentes quando se encontram nos cafés de nossas cidades.

Estas divergências têm suas raízes plantadas historicamente nas relações que se teceram entre as principais comunidades que vieram a povoar aquelas montanhasmais de mil anos. Estas relações sempre beiraram um relativo compromisso de respeito às diferenças de credo, apesar de os drusos terem sido quase dizimados pelos egípcios por volta do ano 1400. Até o final do século XVIII, as lutas eram mais intestinais, entre os clãs tradicionais que disputavam o poder de cada comunidade. Foi durante o auge da dominação drusa que Fakher Din II, em 1600, convidou a comunidade maronita a habitar as montanhas do Líbano.

Com o crescimento populacional destes cristãos e seu maior desenvolvimento financeiro - também com a gradativa influência da França e da Inglaterra, que se digladiavam pela hegemonia na região -, irrompe a disputa e a violência entre drusos (apoiados pela Inglaterra) e os maronitas pelo controle do Monte Líbano.

Os maronitas formam uma comunidade originalmente cristã oriental que arribou àquelas paragens fugindo da perseguição de Constantinopla, então capital da Igreja Cristã Oriental. Foram adotados muitos anos antes pela França, que incentivava estes a criarem um Estado nacional cristão com o intuito de se isolarem do “marárabe muçulmano. Depois de muitos massacres (1860), na segunda metade do século XIX, a França  instaura o seu mandato, que vai se prolongar até 1943, ano da  proclamação da República libanesa.

O mandato francês, reconhecendo a particularidade do agregado de comunidades que habitavam aquela região, achou por bem deixar intacto o sistema de “Millahs” que prevalecia. Confirmou leis que autorizavam cada comunidade a ter seu sistema jurídico próprio e um estatuto pessoal que lhe possibilitava o gerenciamento de seus bens e coordenar as relações e interesses intra-grupo. Este fato vai ter repercussões nefastas na unidade do país, pois alimenta a impossibilidade de as comunidades se unirem e, mais importante, de se misturarem.

Os dois grandes campos de oposição religiosa, muçulmanos e cristãos, logo se transformaram em partidos políticos que disputam eternamente o poder. O casamento civil ainda hoje não existe no país. Para poder se casar e ter direito a alguma herança, o libanês deve estar inscrito em uma das 16 comunidades religiosas que compõem o Líbano atual.

Quando se fala dos sentimentos que pairam entre as comunidades, é bastante esclarecedor evocar os esforços do Partido Comunista Libanês e seus aliados, em 1997 e 98 - época que habitei por -, em eliminar estes entraves do casamento religioso para os cidadãos que queiram adotar o secularismo nas suas relações. Nas suas tentativas de ganhar apoio das confissões mais importantes da sociedade para levar esta proposta ao parlamento, acabaram frustrados em seus esforços, pois quase todas as lideranças comunitárias não estavam interessadas nesta perspectiva.

Sempre as práticas inter-comunitárias são acompanhadas de uma tensão desconfiada ou dissimuladamente rancorosa quando se trata da concorrência por um cargo público ou outra posição qualquer que possibilite poder de decisão. E estas concorrências se dão em todos os níveis na condução dos negócios e preenchimento de cargos no Estado. Em minha próxima viagem de pesquisa, gostaria de ver como anda a composição proporcional das Forças Armadas. Os drusos perderam sua hegemonia?

Pertencer a uma comunidade no Líbano ultrapassa uma adoção puramente religiosa, ela vai determinar as formas das práticas sociais intra-grupo, dar um perfil identitário aos seus aderentes e modular então a sua relação com outros grupos e com o estrangeiro.   Pertencer a uma comunidade etno-confessional é herdar um engajamento cultural e uma posição político-ideológica.

De um lado (nem todos compactamente é claro, mas pensemos nas suas lideranças), os muçulmanos que exaltam suas raízes árabes e beduínas, plantados em um sonho do retorno da grande nação árabe, e de outro os cristãos que reivindicam suas tradições ocidentais e, portanto, mais suscetíveis a apoiar as políticas européias e americanas. Alguns até, como os maronitas, que para nossa surpresa se auto-proclamam fenícios, apóiam francamente os israelensesEste estado de coisas vai implicar em diversos atritos na administração do país que nós brasileiros não conhecemos. Peguemos como exemplo o seu sistema educacional.

Certas linhas de pensamento sempre quiseram promover a arabidade do país, assunto que deu lugar a debates infinitos. Para outros, procura-se confundir arabidade e Islã para promover a língua do Corão e apresentar uma história do Líbano onde o Islã seja um elemento predominante. Outros ainda, se apóiam sobre diversos argumentos para exagerar a fachada ocidental e fenícia do Líbano.

Em certos meios cristãos, houve sempre (pelo menos até a guerra de 1975), a tendência de rebaixar até mesmo a própria língua árabe, como estando ela muito cheia de conotações religiosas, criada mais para os efeitos retóricos/poéticos e incapaz de se renovar. Estas três tendências ideológicas estão longe de cobrir o conjunto dos grupos comunitários do país. Estes três olhares iniciais provocaram tanto desacordo que resultou na proliferação das históriasoficiais” do Líbano.

Cada comunidade possui a sua própria concepção. Agora, como compartilhar uma memória coletiva comum? Quais figuras históricas a reverenciar? Qual é a concepção de cidadania e de uma identidade nacional? Depois do final da última guerra civil, pelo acordo de Taëf assinado entre os beligerantes, ficou estabelecido que o Estado deve ser reforçado para controlar o conteúdo dos livros didáticos e, sobretudo, coordenar uma revisão dos programas escolares de maneira a sublinhar a integração nacional e a unificar os programas de história e de educação cívica.

Para tal empreitada, o Ministério da Educação resolveu estabelecer um amplo debate com o apoio de quatrocentos pesquisadores e a realização de entrevistas com diversas instituições interessadas no vasto leque ideológico-confessional do país.

Para terminar, assinalemos somente, que depois da guerra civil e depois de muito sofrimento, nasce um sentimento tendendo a uma “libanidade” comum, a um cansaço de desavenças. Mas ainda muita água, bombas e sangue vão rolar, até que um desejo comum de se morar junto e construir uma nação solidifiquem-se.

Em um lento caminho de suavizar essas diferenças que deverá passar por novos demarcamentos de suas fronteiras simbólicas, ultrapassando algumas referências históricas, guardando algumas singularidades tidas como seus estandartes identificatórios, e para mais longe pegar a vereda da inter-assimilação. A pergunta que fica é: como e quando?

Recebo notícias de Beirute e dizem-me dos receios de uma nova guerra civil, em decorrência dos um milhão de cidadãos deslocados pelos bombardeamentos. A maioria é xiita e dorme em escolas, hospitais e salas de cinema. Qual será a saúde social do país para a nova reconstrução?

Jamil Zugueib Neto é professor da Universidade Federal do Paraná, Doutor em Psicologia Social pela de Toulouse (França) com pesquisa realizada entre os Druzos do Líbano e as identidades étnicas e a resistência psíquica durante a guerra. Autor de “Identidades e Crises Sociais na Contemporaneidade”, da Ed. Da UFPR.

POSTED BY TARIQ AT 05:14 pm 0 COMMENTS    


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