21 May, 2006

Al Jazira: a CNN do Terceiro Mundo


Antonio Brasil

A rede de TV Al Jazira já foi conhecida como “aquela emissora do Bin Laden”. Hoje, líder de audiência no Oriente Médio, tem o apelido de “CNN árabe”. Em junho próximo,  inaugura a Al Jazira Internacional, o primeiro canal de língua inglesa no Oriente Médio. Em tempos de radicalismo no mundo e na mídia quer se tornar a porta-voz da periferia internacional ou a CNN do terceiro mundo.

O projeto é ambicioso e aqui entre nós, deve estar “nadando em dinheiro”. Montou centros em lugares estratégicos ao redor do mundo, como Doha, Kuala Lumpur, Londres e Washington D.C. Segundo o noticiário, o objetivo é oferecer uma “visão diferente” com “todas as perspectivas da notícia, trazendo uma cobertura dos fatos que mostre os dois lados da informação”. É, pode ser.

Apesar no novo marketing, a Al Jazira ainda é acusada pelos americanos de ter ligação com o terrorismo e “incitar violência" no Oriente Médio. Há alguns anos, o governo Bush planejou bombardear a sede da rede no Qatar. Sua cobertura internacional causa polêmicas e algumas vítimas. A rede tem inimigos poderosos em diversos países da região. Seus jornalistas foram mortos no Afeganistão e no Iraque pelas tropas americanas ou estão presos em vários países sob acusação de terrorismo. No Iraque, a Al Jazira divulga com certo orgulho que continua “banida” pelos americanos.

Mas nem só os americanos estão de olho nos avanços da Al Jazira Internacional. Há alguns meses, a BBC e a TV francesa anunciaram que vão lançar suas próprias redes árabes. Querem continuar controlando o fluxo de notícias. O mercado “fechado” das agências internacionais, principalmente no segmento televisivo, permanece solidamente dominado pelos países ricos. Eles sabem que em um mundo cada vez mais globalizado o poder é sinônimo de informações que geram decisões políticas, econômicas e militares.

A competição nesse mercado é feroz e não admite descaso ou acomodações. Hoje mesmo a maior agência internacional de notícias, a Associated Press, anunciou que o seu “braço” televisivo, a APTN, inaugura um escritório na Coréia do Norte. Após intensas “negociações” com as autoridades norte-coreanas, os sempre pragmáticos executivos de mídia americanos garantiram exclusividade na cobertura de uma das regiões mais estratégicas do mundo. Assim como a guerra ao terror, a guerra pelas notícias internacionais está só começando.

Investimentos e código de ética

Apesar das dificuldades, os responsáveis pela Al Jazira Internacional parecem dispostos a enfrentar a hegemonia das agências americanas. No momento, não só investem milhões de dólares em equipamentos e tecnologia de ponta como contratam alguns dos melhores profissionais do mercado. Entre eles, destaco o diretor geral, Nigel Parsons.

Conheço Nigel há muitos anos. Fomos correspondentes da Worldwide Television News na América Latina e participamos de diversas coberturas internacionais, como a Copa do Mundo no México em 86. Boa parte dos novos executivos e jornalistas da Al Jazira é proveniente de grandes empresas de mídia ocidentais. Os executivos árabes reconhecem a competência da competição. Após anos na APTN, Nigel foi contratado pela rede árabe. Assim como a Al Jazira, ele é muito ambicioso.

Em entrevista ao Valor Econômico, ele diz que “o objetivo da rede é atingir via cabo, satélite ou internet um universo de 30 a 40 milhões de residências em todo o mundo”.

A proposta editorial também é muito ambiciosa: “a Al Jazira Internacional quer abordar cada assunto de forma mais abrangente possível, para fazer que os telespectadores de diferentes regiões se interessem pelo mesmo acontecimento e entendam como ele afeta sua vida”.

Para isso, destaca e divulga os princípios profissionais de seu código de ética (ver aqui

• Adotar os valores jornalísticos de honestidade, coragem, justiça, equilíbrio, independência, credibilidade e diversidade.
• Compromisso pela busca da verdade e por sua exposição
• Abordar qualquer assunto com a preocupação de apresentar os fatos de maneira clara, factual e precisa.
• Apresentar diferentes pontos-de-vista e opiniões sem preconceito ou parcialidade.
• Reconhecer a diversidade das sociedades, com todas as suas raças, culturas e crenças, seus valores e individualidades, para apresentá-las de maneira não-distorcida e honesta.
• Reconhecer erros quando eles ocorrerem, corrigi-los prontamente e procurar garantir que não se repitam.

É, pode ser. Como todo código de ética, é repleto de boas intenções. Mas também há um enorme e evidente interesse financeiro e ideológico nesse projeto de mídia globalizada. Assim como os chineses no mercado internacional, os árabes estão preenchendo espaços nos corações e mentes do público mundial.

Brasil na Al Jazira

Em relação à América Latina, Parsons diz que “a intenção é cobrir a região com um ponto de vista alternativo - diferente do das grandes potências ocidentais (EUA e europeus) - em assuntos polêmicos como a campanha dos EUA contra o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, e a influência americana nas constantes turbulências políticas na América Central”.  Mas a localização estratégica de um escritório em Caracas na Venezuela revela interesses jornalísticos e ideológicos.

"Não queremos ser um canal anti-americano. Vamos tentar cobrir a América Latina com profissionais latino-americanos nos dizendo o que é importante para a população da região", afirma Nigel Parsons. Ele explica que a rede tentará ser mais investigativa, ouvindo a população e não apenas fontes oficiais. Ele obviamente não diz quanto esperam “lucrar” na região e quantos profissionais locais serão contratados pela rede.

Mas, certamente, há vagas para jornalistas brasileiros. Segundo O Globo deste final de semana (ver aqui), uma jornalista carioca, Karina Gomes, 28, já está trabalhando nos escritórios da rede em Washington.

Por enquanto, a Al Jazira deve agir como todas as agências internacionais de TV no passado. Eles pretendem cobrir o território brasileiro diretamente da capital do hemisfério, Buenos Aires.

E enquanto não encontram um jovem correspondente brasileiro ambicioso e competente para cobrir o país, a ex-correspondente e chefe do bureau da CNN em Cuba Lucia Newman virá regularmente ao Brasil em busca de boas histórias. Para isso, já estaria até aprendendo a falar “portunhol”.
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No momento, a Al Jazira Internacional está somente em fase de “testes”. Seus jornalistas não cobriram a crise do gás com a Bolívia e a violência em São Paulo com a tal “visão diferente”. Mas, pelo jeito, não faltaram boas matérias no Brasil. No campo da violência e das crises, conseguimos sempre surpreender o mundo.

Conselho aos navegantes

Em relação ao jornalismo, a Al Jazira busca parcerias com redes abertas para compra e venda de imagens. Seus executivos já entraram em contato com a direção da Globo e da Record e não devem encontrar maiores dificuldades. 

Em termos de “negócios” e negociatas, os tradicionais “mercadores árabes” da rede Al Jazira terão muito a aprender com os donos das nossas “capitanias hereditárias” televisivas. Eles pretendem oferecer o novo canal para as redes por assinatura a cabo e satélite. Ou seja, estarão diante dos ditames do sistema Net/Globo, um “quase” monopólio.

Antes de negociar com os mercadores locais, os executivos da Al Jazira deveriam investigar as dificuldades de outras redes de notícias internacionais como a BBC ou o serviço em espanhol da CNN para se estabelecer no Brasil. 

Ao ameaçarem a hegemonia do canal de seu canal de notícias, a Globonews, a Net costuma “misteriosamente” reposicionar seus canais.

Nos últimos dias, aqui no Rio, o serviço mundial da BBC quealguns anos estava no canal 28, foi transferido para os confins quase inacessíveis do canal 98. consegui relocalizar a BBC na grade após uma pequena nota do jornalista Ancelmo Gois. Assim como eu, ele confessou que também estava muito insatisfeito com a mudança súbita e não divulgada de canais. E, para aumentar a minha surpresa e indignação, a mesma Net fez questão de colocar um canal pornográfico no espaço anteriormente ocupado pela BBC. Deve ter sido mera coincidência.

Quanto à CNN Internacional, o excelente serviço em espanhol da rede americana, simplesmente desapareceu da grade dos assinantes básicos. Muito estranho, mas sempre muito previsível.

A Al Jazira Internacional deve ter cuidado ao negociar sua vinda para o Brasil. Se conseguir um canal na grade da Net/Globo e fizer sucesso, a CNN do Terceiro Mundo pode se tornar a mais nova vítima de remanejamentos técnicos inevitáveis. Deve ser mesmo muito difícil competir com o poder americano e inquestionável qualidade da televisão brasileira.

Uma observação é que o nome da emissora se escreve corretamente como "Al Jazeera" e não "Al Jazira". No entanto, foi mantido o texto original do autor do artigo.

POSTED BY TARIQ AT 09:24 pm 0 COMMENTS    


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